sábado, 15 de novembro de 2008
mergulhar na brisa e encontrar a bruma
desejar o eterno retorno,
novamente isso de novo.
mergulhar na brisa e encontrar a bruma,
gostinho de mato doce na boca.
com braços amigos entrelaçados sobre o peito,
e nas pontas dos dedos nascendo margaridinhas,
abrindo-se em botão.
alucinógenos ou psicotrópicos?
o momento, estava ali!
encontrei o que procurava!
estou a.p.a.i.x.o.n.a.d.a pela vida!
estou entre amigos!
não há poder ou palavra.
não há gosto mais doce.
não há medos de cortes,
nem de interrupções de fluxos.
ninguém é vítima de ninguém.
não há maior beleza!
posso sentir a leve espessura da bruma
ao penetrar a noite: um bom encontro!
apenas um bom encontro!
silêncio!
deixemos as sentimentalidades na brisa, nos olhos.
as palavras não darão conta de revelar nada sobre as intensidades.
beijo-os nos olhos como se eu fosse uma fada
para que sonhem... enfim como deuses que são.
Namastê (o deus em mim, saúda o deus em ti)
lesmari
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Dionísio, Ariadne e Teseu
Lesmari
terça-feira, 28 de outubro de 2008
segurando o fio de Dionísio
Não pertence mais a Ariadne.
Quanto tempo pra entender?
Quanto tempo este fio rígido?
Dor destas costas de camelo.
Ouvirei o sim retornando no touro branco,
Me deixe nascer de tuas orelhas,
Cavaleiro-touro que ri e canta.
E isso é bom que não acaba!
Estou mais misturada.
Não sei mais o que devo levar quando visto a farda.
Me parece um grande disfarce.
Menos como os de quem vai para a guerra,
e mais como os de quem dança na arena do circo.
Como Dionísio precisa de Ariadne?
Aguardo atentamente os sins que vem deste labirinto orelha.
Estou aqui segurando o fio de Dionísio: - em celebração!
lesmari
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
o dragão "não deves"
Num canto qualquer, pedaços de pessoas.
Sobras, restos de desejo misturados a covardia-culposa-Makbet.
Estaremos sós no delírio e não daremos conta do fascismo.
Sim! O dragão “não deves”!
Vomita as bolas de fogo e queima as vísceras delicadas.
Deveria ter mentido. Deveria ter-me feito fazer o personagem.
Enganando os outros, enganaria a mim mesmo.
Eu era forte e poderosa no enganar os outros.
Tipo... eu sei: - “não deves!”.
Eu deveria saber.
Deveria ser.
Deveria contar com isso.
Deveria ter mentido.
Não deveria ter dançado nua enquanto amanhecia.
Não deveria ter amado os homens errados.
Deveria saber calcular.
Deveria ser professora.
Deveria não ter medo.
Deveria ser menos orgulhosa.
Não deveria sentir tanto meu próprio estômago.
Tem uma faca presa nas minhas costas.
Lesmari e a faca
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Dionísio... Porque precisa de Ariadne?
Que seja um enigma!
Temos uma Ilha: Naxos.
Dionísio exilado, confinado.
Um inesperado encontro: Ariadne! (bom encontro)
Entregara seu fio a Teseu
e agora receberá a coroa de ouro
e será esposa de um imortal.
Dionísio... Porque precisa de Ariadne?
Uma mortal, sem fio, nem espada... pura entrega... entrega.
Ariadne é capaz de morrer. E morre.
morre tornando-se constelação (Corona Borealis).
É a coroa que voa pelos ares.
virando pura forma.
Dionísio... Porque precisa de Ariadne?
Lesmari e os enigmas que não são enigmas.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
gosto desta palavra.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
cidade-chaminés
Soltam altas suas fumaças... nem sempre escuras de fuligem
algumas vezes expelem vapor dágua
nada incomum
de todas as cores... de tijolos.. de pinturas descascadas...
antigas como unhas de mulheres dama...
aquela beleza de suportar as agonias.
cidade sem ninfas, nem borboletas, nem palavras...
cidade feita de tosses de diferentes timbres.
grossuras, larguras, enfim daquilo que é só forma...
o conteúdo está no espaço!
lesmari
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
A lesma eca
vocabulário
Bitchesca = é duas vezes tchesca.
Tchesca = lolha.
Lolha = filholha.
Minhoca = Coisa mais querida.
Marcio Sobrosa
lesbando - lesma + babando.
ou ainda, lesmabando - lesma + babando.
lesmacendo - lesma + amanhecendo.
lesmari
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
lesmabando
segue concentrada em direção ao canteiro. é preciso muita atenção.. não toma ritalina.
não está só! sem olhos nem percebe.
o corpo sensível escuta. Ouve as pedras... concentra forças de percepção, mas sempre se lança cega!
é bando de lesma cega. só pelo toque-tato é que tem as outras. o encontro é viscoso, íntimo.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
movimento
O Povo em lesmari, Cidade Invisível que não é uma cidade, e sim a diáspora da cidade de mesmo nome. Expulsam-se multidões de homens, mulheres e crianças contentes, alegres com suas bocas abertas de dentes brancos a mostra.
Livre, mesmo sem pernas: a cidade também caminha.
lesmari caminha colada ao chão e nenhum pé desavisado de passantes encontra seu pequeno corpo úmido.
lesmarib
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
onde escapo?
domingo, 14 de setembro de 2008
lesmacendo
Vestindo roupas de leve alumínio a lesma passa com seu corpo de espelho.
Grudando e desgrudando ... refletindo as linhas --- interessante!
sem ser boa ou má-lesma. lesmacendo.
sem desculpas de culpas. lesmacendo.
Observa armas mais pontiagudas do que as suas, menos modestas.
compara sem desejar roubá-las.
Pensa menos no que pensam dela enquanto se desloca... lesmacendo.
Lesma criando asas?
Delícia esta tua apropriação.
Delícia esta forma de sentir o outro.
Sem desejar sê-lo.
É isto, outra forma de sentir: lesmacendo.
Pela manhã quando acordar estarei vazia.
Pela primeira vez é por mim que estarei vazia.
Mesmo assim estou grata cavaleiro zen de chapéu formoso.
Aprenderei a visitar sem que minha cleptomania me derrote.
Pela primeira vez é por mim que estarei vazia.
Mesmo assim estou grata cavaleiro zen de chapéu formoso.
lesmari calma lemacendo no domingo.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Noite do dia 10 de semtembro de 2008.
na sala numa fruteira
a natureza está morta
laranjas, maçãs e pêras
bananas, figos de cera
decoram a noite torta
sob a janela do quarto
a cama dorme vazia
encaro nosso retrato
sorrindo sobre o criado
no meio da noite fria
está pingando o chuveiro
que banho mais apressado
molhado caíste fora
no espelho minh'alma chora
lá fora está tão gelado
sozinha nesta cozinha
em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é
gosto desta palavra
adj. m. e f. 1 Amador de belas-artes, especialmente de música. 2 Que exerce uma arte, por gosto e não por obrigação. S. m. e f. Pessoa diletante.
DILETANTISMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO......
O ano que vem
Eu passo minhas férias com você, gordinha
Só não diga que dançou nossa amizade
Isso não dança, isso não é tango
Pra dançar sem mais nem menos
Gordinha
Faço tudo pra poder
Ficar mais perto de você, gordinha
E isso é natural em mim
Poderia ser forçado
Mas não é o caso, você sabe
Mas você sabe mesmo?
Então diga
É difícil eu ficar seguro
Você faz cara de quem duvida
E eu juro
Essa certeza é tudo pra que eu possa amar
Gordinha
Bom, um pouco é exagero
A sua dúvida não é tão cruel assim
mas poderia ser, você há de convir
E ainda que você faça tudo por diletantismo
Uma ponta de maldade fica, gordinha
E isso corta o coração
Cortar que eu digo é metafórico
Mas que corta, corta o coração
Por isso eu te falei das férias, lembra?
Pra tentar uma reconciliação
terça-feira, 9 de setembro de 2008
lesmari
O leão vem seguindo seu rastro. Saberá dizer não.
Seja bem vindo timoneiro! Alegra-me tê-lo de voltar ao barco.
Começaremos por dançar na proa sem nossas dentaduras.
das vísceras
desejo
dos desejos
O teatro não é terapia, mas se for bom teatro. Teatro bem feito é terapêutico.
Interessa-me muito falar deste homem primitivo, que concebe bem a entrega para seu papel no ritual. Sem perder a relação com o agora e ao mesmo tempo abrindo o tempo, fazendo buracos na existência, não só dele, mas também de quem o vê e se relaciona com ele.
Percebo assim como uma forma de, por aquele tempo, rasgar o endurecimento “dos reais” e conectar-se com os possíveis.
És o homo ludes escapando e mostrando na precariedade a possibilidade de criar aqui.
Onde estão os homo ludes?
Talvez agora eles cantem lá fora!
lesmari
olhos de lesma
dos momentos de crise
Raramente durmo sozinha. Ando satisfeita.
Deu para viver sem nenhuma previsão?
“- E para a região norte não temos qualquer previsão!”. Perguntem aos Pajés, árvores, animais, ou mesmo percebam na hora que a chuva chegar e que o sol se por!
Acabo de esmagar uma lesma. Corri para ver as bolhas que saem de seu corpo gosmento. É adorável a morte de uma lesma! O corpinho se retorce e saem dela espuminhas. Ela não reage as provocações de um graveto. Solta! Entrega-se para terra. Para de sentir-se visgo em meio a aridez da terra. Ela é árida também.
Delírio de facas, facões, espadas, estocadas na bainha do céu horizontal onde escrevi aquelas palavras de gosto doce de corantes artificiais. Rebentar de vez este céu azul triste de anjinhos gordos e estéreis. Roubar-lhes os arcos e flechas e esconder no escuro profundo da terra usando-os quando no convier.
Lesmari
Partir antes do fim.
terão ar? levarei comigo?
Menos estrangulados, menos paralisantes.
Partir de mim, partir-me, partir-se? - repartir?
Escapar com o fio de Ariadne?
Ir-se de mim para o amor?
Para o indefinido futuro?
Buraco negro?
Para lugares que se perdem nos olhares dos que ficam e caminham nos desertos.
partir para lugares onde não se sabe qual a paisagem, como é o terreno?
Mas partir sem demora,
partir para o incalculável,
Usando a bússola de mistérios e o fio que produzi com as aranhas.
vestindo imagens espalhadas no ar: nua. sem culpa.
antes da partida colocarei na caixa: o grande peso de minha armadura,
os 30 anos, a filha yang, o outro, o medo da morte, o medo da loucura,
do ridículo, do não saber.
Mas deixarei a caixa aberta para que olhem a minha partida.
Para seguir preciso de uma armadura estufada de espuma.
que encha o corpo de espaço vazio.
Encha de esquecimento.
partir antes que seja tarde.
antes de esquecer que existe este espaço esquecido e repleto.
Cheio de imagens costuradas, lançadas ao vento, de cabeça pra baixo.
um grande varal de roupas voando que circunda a cidade, dando limite,
como se fosse sua muralha.
Cidade da partida.
lesmari
terça-feira, 2 de setembro de 2008
sobre desterritorialização
Suely Rolnik:
Os processos de “desterritorialização” estão exacerbados, ou seja, ocorrem em grande velocidade os muitos movimentos de perda de sentido, falência de sentido de um território.
Território não é somente um espaço ou tempo vivenciado pelo corpo, mas é algo que sustenta, mesmo que temporariamente, todo um modo de ser e de agir no mundo. Algo que pode ser “visto”, ou “sentido” pelo que o corpo expressa, e este corpo de sensação (corpo vibrátil) vivencia a desterritorialização como angústia: medo de morrer, medo de enlouquecer ou medo de não prosperar (perder credibilidade).
Para compreendermos esta questão, basta atentarmos para a grande quantidade de medicamentos produzidos atualmente, que tentam amenizar estes processos desterritorializantes: déficit de atenção, síndrome do pânico, depressão não são mais casos pontuais, muito pelo contrário. Buscando estabilidade engordamos a industria farmacêutica.
domingo, 31 de agosto de 2008
EstaMira
Um dos maiores aterros do Brasil.
Ela Está num documentário que tem como título seu nome.
Assisti em 2007 pela primeira vez.
Estava esperando a Dama do Apocalipse.
Como se existisse o passado da espera.
Como se existisse o tempo de revelar a verdade, toda a verdade.
E fazer nascer a estrela do caos.
Como se pudéssemos voltar para prestar contas ao público.
Como se o amanhã fosse contado da mesma forma para as Damas do Apocalipse.
Onde está a Dama do lixo?
Numa casa, guardada por deus.
Ela fez o que a quadrilha de deus mandou e finalmente não passa fome?
desfez a revolução que vomitava? EstaMira!
Falou. E ainda bem que gostaram. E fim.
lesmari
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
embriaguez
Ir em busca destas forças que ti farão forte.
Do tamanho da força de vida que tu vê com teus grandes olhos de lua.
Não horrorizar-se, mas dançar pelas calçadas.
Encontrar-se no brilho dos globos de vidro.
Tudo vira poesia: vai dançar no salão...
E depois de encontrar bocas e amizades,
e não querer mais partir.
Carregar a poesia no braços para fora
a alegria de não estar só
o êxtase coletivo.
Sem culpa saciar-se: a fome, o sexo.
caminhar e amar os cachorros da rua, líricos cachorros.
os olhos de sapos das pessoas saindo para o trabalho.
Tudo vira poesia... embriaguez
lesmari
tempo...tempo...tempo...tempo - Onde estão meus relógios?
“ Tempo Escondido - de Ná
E me mando em busca do tempo perdido
Evidente que eu tento de tudo que é jeito
Mas não acho meu tempo está sempre escondido
Já procurei no passado, já procurei no futuro
Já procurei no presente, já dei por perdido
Já procurei com cuidado, já procurei no escuro
Já procurei simplesmente atendendo a pedidos
Procurei meu amigo que é cara legal
Que tem tempo de sobra, período integral
Ele acha que o tempo, de modo geral
É uma perda de tempo, um atraso total
Ói que sacada genial, ói que sacada genial
Ele tem mesmo esse dom de dizer o essencial
É ponto fundamental, é ponto fundamental
Ele tocou nesse ponto, mudou meu astral
Claro que depois, pensando bem
Vi que também não era assim tão genial
Porque afinal, o tempo todo
O tempo tem, ou tem poder
Ou tem pudor, ou tem poesia
O tempo gera, todo dia
Um contraponto geral
Mergulhei outra vez nessa busca insana
Mas primeiro passei um bom fim de semana
Levantei quase tudo que eu tinha de grana
Na segunda pulei feito louca da cama
Não quis contemporizar, sai correndo buscar
Queria o tempo perdido de volta pro lar
Não era assim tão vulgar, nem nada espetacular
Era o meu tempo de volta ao devido lugar
Procurei outro amigo que é mais espontâneo
Foi colega de escola, meu contemporâneo
Ele acha que o tempo é um absurdo tamanho
E me botou pra fora e mandou tomar banho
Isso é politicamente, isso é politicamente
Isso é politicamente incorreto e estranho
É tão patético ter, é tão patético ter
É tão patético ter um colega tacanho
Claro que depois, pensando bem
Vi que também não era assim tão pueril
Porque afinal, o tempo todo o tempo vem
Não tem porquê, não tem porém
Não tem por onde
O tempo dura o quanto pode
É temporário demais
No entanto eu levanto uma hora mais cedo
E me mando pra busca do tempo perdido
Evidente que eu tento de tudo que é jeito
Mas não acho meu tempo, está sempre escondido
não sei ser engenheira dos lazeres
a censura não é o único problema para um artista dentro de um regime totalitário. Psicologicamente, a presença constante do risco de ser punido inibe o próprio processo de criação. “Os regimes totalitários têm, no invisível, um impacto mais violento no processo de criação, pois tudo o que é da ordem do pensamento e da criação - seja em uma obra de artes visuais, seja cinematograficamente ou musicalmente - é ‘dar corpo’ a algo que está presente na sensibilidade da gente. Tudo isso que precisa desabrochar, se apresentar e se conectar com o entorno, pois isso é próprio da arte, é punido nos regimes ditatoriais, que se caracterizam por não suportar qualquer espécie de desvio daquilo que é vivido e imposto como um dogma, uma norma”. Ela explica que o próprio movimento de dar corpo ao que está presente no processo da sensibilidade fica associado ao pavor.
Ela (Lygia) diz ainda que, no Brasil, temos uma memória ativa do que foi a militância política naquelas décadas, mas temos uma memória quase zerada e inexistente do que se passou no campo cultural e existencial. A experiência da ditadura tal como se dava na sensibilidade dos artistas encontrou modos de expressão em obras absolutamente fabulosas. “Isso tudo a gente deletou da memória por razões que a psicanálise explica, porque esse tipo de experiência traumática, e tudo aquilo que nossa subjetividade faz para se proteger disso é colocar tudo para baixo do tapete, recalcar o que se sente. Isso tudo não acontece por burrice ou covardia, mas por uma total impossibilidade de lidar com aquilo. Por uma questão de sobrevivência psíquica, aquilo tem que ser deixado de lado até chegar um momento em que se possa entrar em contato com aquilo e dissolver seus efeitos tóxicos”.
Suely Rolnik diz.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Tamara - cidades invisíveis - Ítalo Calvino
O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela defini a si própria e todas as suas partes.
A
Cidade
e os
Símbolos
ps. socorro!!! o que seria diferente disso?
Tamara cidade de passagem. Nada se conhece dela. Não se está nela nunca.
Para quem gosta de música e poesia
diretamente do passado... estreitando-se, pulando o presente e invadindo o futuro.
lembranças de Lesmari
Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração
Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão
Vi-me num filme dois de mim... só pela tela do outro que é em si eu um pouco.
Avenida Paulista, 7h da noite. A falta de sentido escorrega subindo pelas minhas costas. É medo?! Não sei. Acabei de sair do cinema. Ela volta pela barriga. Entro num boteco: - Um cigarro solto? Sim, apenas um "marca-diabo". Não faz mal. Quero um pouco de ar. Só sinto o meio do meu corpo. As pessoas que passam fazem parte do filme. Olho nos olhos delas. Mas não apenas olho. Deito o meu olhar e elas sentem. Estou vendo arte. Não tenho pernas.
Vestida do que era, parece interessante escrever o que vejo. De repende a vida virou estória e por algum tempo é possível sentir o fim das narrativas.
Entro no metro. Tudo é palavra. Desastres vem a minha cabeça. Desastre no metro, assassinatos em massa. Tem um cheio de borracha queimada no vagão. Uma moça com cara de indiana usando blusa colorida segura uma pasta com roupas desenhadas. Provavelmente uma estilista, vendedora, produtora de moda. Eu estou em pé e tento encostar o bumbum na barra de ferro. Cansada como os outro. A estilista brega me acotovela. Ela deve estar pior. O brinco comprido de outra moça que conversa com sua amiga em pé me chama atenção. Um brinco digno. Uma jóia falsa da rainha.
Vem a minha estação. Entro em outro vagão. Sento.
Do meu lado uma senhora segurando a cabeça com o dedo médio e indicador. Pode estar rezando, muito cansada, preocupada ou com dor de cabeça. Por um tempo sinto a atmosfera de cansaço dos trabalhadores da cidade. Eu passei a tarde no cinema. Que sorte.
Vem a minha estação. Um homem com uma cueca vermelha a mostra me encara como se soubesse que escrevo. Uma moça com ar alegre de turista me pergunta como chega na rodoviária. Ela veste uma roupa clara. Lembre minha cunhada com sua bolsa hippie e seus cabelos crespos. Ela parece se sentir ótima. Entro em outro vagão. Um velho me encara.
Chego a rodoviária, um senhor de cabelos brancos me pede um dinheiro para comer um lanche, dou as moedas que me sobraram da passagem. Vejo de longe a moça turista se encaminhando para o guichê de Curitiba. Ah! Ela vem do sul.
Pego o ônibus e começo a escrever.

