
Olho de casca-caracol
Troquei meu olho
Barganhei, vendi, desfiz-me dele...
Numa esquina em preto e branco
do planeta dos meninos pelados
Meninos, meninas, pe-la-dos.
Troque num mercado de peixes
Numa ruela escura
De pedras escorregadias
Donde gerações ancestrais
Trocavam corações de touro, por ópio.
Fitas e pentes, por uma noite de embriagues.
Correntes e chicotes, por um vão de pernas.
Donde lindas prostitutas metiam
a mão por debaixo das anáguas,
e vendiam o que era delas.
Belas em seus cabelos ruivos erguidos
Em seus olhos maquiados e horrorizados... enormes!
barganhei...sim!
para que dois olhos iguais?!
Um me basta!
- Dou-te um delírio, você me dá este olho? - É pegar ou largar!
disse um velho de nariz apodrecido.
- Sim, dou-te minha lucidez! Derreto-me pelas calçadas.
Vendi, barganhei... e foi lá mesmo que encontrei
A casca-caracol que coloquei no lugar de meu olho
Pareceu-me uma boa escolha.
Para que se precisa de um olho que não vê?
Melhor será adornar este buraco escuro.
No lugar do olho coloquei uma casca-caracol
que encontrei pela manhã perto dos musgos do porto
olho de casca-caracol de fundo e superfície:uma joia!
A casca é uma escada que entra e sobe.
Ao mesmo tempo: fundo e superfície!
Só descendo que se sabe onde chega...
Só subindo que se sabe onde pára.
E se pára, é apenas por um tempo...
Até encontrar nova escada caracol.
