terça-feira, 26 de agosto de 2008

Vi-me num filme dois de mim... só pela tela do outro que é em si eu um pouco.

Alices, Camilas...NOMES PRÓPRIOS. várias em mim. As muitas narrativas.
Avenida Paulista, 7h da noite. A falta de sentido escorrega subindo pelas minhas costas. É medo?! Não sei. Acabei de sair do cinema. Ela volta pela barriga. Entro num boteco: - Um cigarro solto? Sim, apenas um "marca-diabo". Não faz mal. Quero um pouco de ar. Só sinto o meio do meu corpo. As pessoas que passam fazem parte do filme. Olho nos olhos delas. Mas não apenas olho. Deito o meu olhar e elas sentem. Estou vendo arte. Não tenho pernas.
Vestida do que era, parece interessante escrever o que vejo. De repende a vida virou estória e por algum tempo é possível sentir o fim das narrativas.
Entro no metro. Tudo é palavra. Desastres vem a minha cabeça. Desastre no metro, assassinatos em massa. Tem um cheio de borracha queimada no vagão. Uma moça com cara de indiana usando blusa colorida segura uma pasta com roupas desenhadas. Provavelmente uma estilista, vendedora, produtora de moda. Eu estou em pé e tento encostar o bumbum na barra de ferro. Cansada como os outro. A estilista brega me acotovela. Ela deve estar pior. O brinco comprido de outra moça que conversa com sua amiga em pé me chama atenção. Um brinco digno. Uma jóia falsa da rainha.
Vem a minha estação. Entro em outro vagão. Sento.
Do meu lado uma senhora segurando a cabeça com o dedo médio e indicador. Pode estar rezando, muito cansada, preocupada ou com dor de cabeça. Por um tempo sinto a atmosfera de cansaço dos trabalhadores da cidade. Eu passei a tarde no cinema. Que sorte.
Vem a minha estação. Um homem com uma cueca vermelha a mostra me encara como se soubesse que escrevo. Uma moça com ar alegre de turista me pergunta como chega na rodoviária. Ela veste uma roupa clara. Lembre minha cunhada com sua bolsa hippie e seus cabelos crespos. Ela parece se sentir ótima. Entro em outro vagão. Um velho me encara.
Chego a rodoviária, um senhor de cabelos brancos me pede um dinheiro para comer um lanche, dou as moedas que me sobraram da passagem. Vejo de longe a moça turista se encaminhando para o guichê de Curitiba. Ah! Ela vem do sul.
Pego o ônibus e começo a escrever.

Um comentário:

Olhozinho disse...

Texto para ler em voz alta, de primeira! Numa marcha só, fazendo o motor aguentar o tranco da subida! Texto para ler, ler em voz alta, voz alta!!!