sexta-feira, 29 de agosto de 2008

não sei ser engenheira dos lazeres

LYgia diz:
a censura não é o único problema para um artista dentro de um regime totalitário. Psicologicamente, a presença constante do risco de ser punido inibe o próprio processo de criação. “Os regimes totalitários têm, no invisível, um impacto mais violento no processo de criação, pois tudo o que é da ordem do pensamento e da criação - seja em uma obra de artes visuais, seja cinematograficamente ou musicalmente - é ‘dar corpo’ a algo que está presente na sensibilidade da gente. Tudo isso que precisa desabrochar, se apresentar e se conectar com o entorno, pois isso é próprio da arte, é punido nos regimes ditatoriais, que se caracterizam por não suportar qualquer espécie de desvio daquilo que é vivido e imposto como um dogma, uma norma”. Ela explica que o próprio movimento de dar corpo ao que está presente no processo da sensibilidade fica associado ao pavor.
Ela (Lygia) diz ainda que, no Brasil, temos uma memória ativa do que foi a militância política naquelas décadas, mas temos uma memória quase zerada e inexistente do que se passou no campo cultural e existencial. A experiência da ditadura tal como se dava na sensibilidade dos artistas encontrou modos de expressão em obras absolutamente fabulosas. “Isso tudo a gente deletou da memória por razões que a psicanálise explica, porque esse tipo de experiência traumática, e tudo aquilo que nossa subjetividade faz para se proteger disso é colocar tudo para baixo do tapete, recalcar o que se sente. Isso tudo não acontece por burrice ou covardia, mas por uma total impossibilidade de lidar com aquilo. Por uma questão de sobrevivência psíquica, aquilo tem que ser deixado de lado até chegar um momento em que se possa entrar em contato com aquilo e dissolver seus efeitos tóxicos”.


Suely Rolnik
diz.

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