domingo, 31 de agosto de 2008

EstaMira

Estamira é uma ex-catadora do lixão do Aterro de Gramacho no Rio.
Um dos maiores aterros do Brasil.
Ela Está num documentário que tem como título seu nome.
Assisti em 2007 pela primeira vez.


Estava esperando a Dama do Apocalipse.

Como se existisse o passado da espera.
Como se existisse o tempo de revelar a verdade, toda a verdade.
E fazer nascer a estrela do caos.

Como se pudéssemos voltar para prestar contas ao público.
Como se o amanhã fosse contado da mesma forma para as Damas do Apocalipse.

Onde está a Dama do lixo?
Numa casa, guardada por deus.
Ela fez o que a quadrilha de deus mandou e finalmente não passa fome?
desfez a revolução que vomitava? EstaMira!

Falou. E ainda bem que gostaram. E fim.

lesmari

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

embriaguez

Dar-se em sacrifício.
Ir em busca destas forças que ti farão forte.
Do tamanho da força de vida que tu vê com teus grandes olhos de lua.
Não horrorizar-se, mas dançar pelas calçadas.
Encontrar-se no brilho dos globos de vidro.
Tudo vira poesia: vai dançar no salão...
E depois de encontrar bocas e amizades,
e não querer mais partir.
Carregar a poesia no braços para fora
a alegria de não estar só
o êxtase coletivo.
Sem culpa saciar-se: a fome, o sexo.
caminhar e amar os cachorros da rua, líricos cachorros.
os olhos de sapos das pessoas saindo para o trabalho.
Tudo vira poesia... embriaguez

lesmari

tempo...tempo...tempo...tempo - Onde estão meus relógios?


Tempo Escondido - de Ná

Já levanto com tudo que tenho direito
E me mando em busca do tempo perdido
Evidente que eu tento de tudo que é jeito
Mas não acho meu tempo está sempre escondido

Já procurei no passado, já procurei no futuro
Já procurei no presente, já dei por perdido
Já procurei com cuidado, já procurei no escuro
Já procurei simplesmente atendendo a pedidos

Procurei meu amigo que é cara legal
Que tem tempo de sobra, período integral
Ele acha que o tempo, de modo geral
É uma perda de tempo, um atraso total

Ói que sacada genial, ói que sacada genial
Ele tem mesmo esse dom de dizer o essencial
É ponto fundamental, é ponto fundamental
Ele tocou nesse ponto, mudou meu astral

Claro que depois, pensando bem
Vi que também não era assim tão genial
Porque afinal, o tempo todo
O tempo tem, ou tem poder
Ou tem pudor, ou tem poesia
O tempo gera, todo dia
Um contraponto geral

Mergulhei outra vez nessa busca insana
Mas primeiro passei um bom fim de semana
Levantei quase tudo que eu tinha de grana
Na segunda pulei feito louca da cama

Não quis contemporizar, sai correndo buscar
Queria o tempo perdido de volta pro lar
Não era assim tão vulgar, nem nada espetacular
Era o meu tempo de volta ao devido lugar

Procurei outro amigo que é mais espontâneo
Foi colega de escola, meu contemporâneo
Ele acha que o tempo é um absurdo tamanho
E me botou pra fora e mandou tomar banho

Isso é politicamente, isso é politicamente
Isso é politicamente incorreto e estranho
É tão patético ter, é tão patético ter
É tão patético ter um colega tacanho

Claro que depois, pensando bem
Vi que também não era assim tão pueril
Porque afinal, o tempo todo o tempo vem
Não tem porquê, não tem porém
Não tem por onde
O tempo dura o quanto pode
É temporário demais

No entanto eu levanto uma hora mais cedo
E me mando pra busca do tempo perdido
Evidente que eu tento de tudo que é jeito
Mas não acho meu tempo, está sempre escondido

“É muito raro, que se pense a temporalidade da psicose na clínica por um viés outro que não sobre o modo privativo e negativo, isto é: falta aos loucos isto ou aquilo”. Portanto, a dificuldade de acolhimento da multiplicidade dos tempos não permite uma visão capaz de enxergar as realidades que não seguem nosso modelo linear de tempo. Peter Pál Pelbart

não sei ser engenheira dos lazeres

LYgia diz:
a censura não é o único problema para um artista dentro de um regime totalitário. Psicologicamente, a presença constante do risco de ser punido inibe o próprio processo de criação. “Os regimes totalitários têm, no invisível, um impacto mais violento no processo de criação, pois tudo o que é da ordem do pensamento e da criação - seja em uma obra de artes visuais, seja cinematograficamente ou musicalmente - é ‘dar corpo’ a algo que está presente na sensibilidade da gente. Tudo isso que precisa desabrochar, se apresentar e se conectar com o entorno, pois isso é próprio da arte, é punido nos regimes ditatoriais, que se caracterizam por não suportar qualquer espécie de desvio daquilo que é vivido e imposto como um dogma, uma norma”. Ela explica que o próprio movimento de dar corpo ao que está presente no processo da sensibilidade fica associado ao pavor.
Ela (Lygia) diz ainda que, no Brasil, temos uma memória ativa do que foi a militância política naquelas décadas, mas temos uma memória quase zerada e inexistente do que se passou no campo cultural e existencial. A experiência da ditadura tal como se dava na sensibilidade dos artistas encontrou modos de expressão em obras absolutamente fabulosas. “Isso tudo a gente deletou da memória por razões que a psicanálise explica, porque esse tipo de experiência traumática, e tudo aquilo que nossa subjetividade faz para se proteger disso é colocar tudo para baixo do tapete, recalcar o que se sente. Isso tudo não acontece por burrice ou covardia, mas por uma total impossibilidade de lidar com aquilo. Por uma questão de sobrevivência psíquica, aquilo tem que ser deixado de lado até chegar um momento em que se possa entrar em contato com aquilo e dissolver seus efeitos tóxicos”.


Suely Rolnik
diz.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Tamara - cidades invisíveis - Ítalo Calvino

pag. 18

O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela defini a si própria e todas as suas partes.
A
Cidade
e os
Símbolos

ps. socorro!!! o que seria diferente disso?

Tamara cidade de passagem. Nada se conhece dela. Não se está nela nunca.

Para quem gosta de música e poesia

diretamente do passado... estreitando-se, pulando o presente e invadindo o futuro.
lembranças de Lesmari


Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração
Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão

Vi-me num filme dois de mim... só pela tela do outro que é em si eu um pouco.

Alices, Camilas...NOMES PRÓPRIOS. várias em mim. As muitas narrativas.
Avenida Paulista, 7h da noite. A falta de sentido escorrega subindo pelas minhas costas. É medo?! Não sei. Acabei de sair do cinema. Ela volta pela barriga. Entro num boteco: - Um cigarro solto? Sim, apenas um "marca-diabo". Não faz mal. Quero um pouco de ar. Só sinto o meio do meu corpo. As pessoas que passam fazem parte do filme. Olho nos olhos delas. Mas não apenas olho. Deito o meu olhar e elas sentem. Estou vendo arte. Não tenho pernas.
Vestida do que era, parece interessante escrever o que vejo. De repende a vida virou estória e por algum tempo é possível sentir o fim das narrativas.
Entro no metro. Tudo é palavra. Desastres vem a minha cabeça. Desastre no metro, assassinatos em massa. Tem um cheio de borracha queimada no vagão. Uma moça com cara de indiana usando blusa colorida segura uma pasta com roupas desenhadas. Provavelmente uma estilista, vendedora, produtora de moda. Eu estou em pé e tento encostar o bumbum na barra de ferro. Cansada como os outro. A estilista brega me acotovela. Ela deve estar pior. O brinco comprido de outra moça que conversa com sua amiga em pé me chama atenção. Um brinco digno. Uma jóia falsa da rainha.
Vem a minha estação. Entro em outro vagão. Sento.
Do meu lado uma senhora segurando a cabeça com o dedo médio e indicador. Pode estar rezando, muito cansada, preocupada ou com dor de cabeça. Por um tempo sinto a atmosfera de cansaço dos trabalhadores da cidade. Eu passei a tarde no cinema. Que sorte.
Vem a minha estação. Um homem com uma cueca vermelha a mostra me encara como se soubesse que escrevo. Uma moça com ar alegre de turista me pergunta como chega na rodoviária. Ela veste uma roupa clara. Lembre minha cunhada com sua bolsa hippie e seus cabelos crespos. Ela parece se sentir ótima. Entro em outro vagão. Um velho me encara.
Chego a rodoviária, um senhor de cabelos brancos me pede um dinheiro para comer um lanche, dou as moedas que me sobraram da passagem. Vejo de longe a moça turista se encaminhando para o guichê de Curitiba. Ah! Ela vem do sul.
Pego o ônibus e começo a escrever.